Não houve nenhum problema, tudo corria naturalmente. Foram feitos muitos ensaios. Mas o solo de violino ia começar a qualquer instante... Segurou o coração na boca enquanto os instrumentos iam, um a um, se calando até que só restasse uma melodia leve que aos poucos tomava a platéia.
O som parecia vir do instrumento de um anjo. Estava lívido. Agora, mais do que nunca, sentia-se culpado por ter se negado a emprestar o violino de seus tempos de orquestra. Sozinha no palco, iluminada por todas as luzes que continuavam acesas, aquela menina de 13 anos parecia reinventar cada acorde. Ela tinha chorado por sua causa...
Ele tentava decifrar naquele rostinho alguma expressão de rancor ou tristeza que fosse resultado de sua teimosia de velho. Não havia nada naqueles olhos. Sua netinha parecia oca enquanto tocava...
A alma havia abandonado o corpo frágil e encontrado abrigo no instrumento.
Só ele percebia que aquilo não era mais apresentação de um grupo de formandos de escola de música.
Era uma consagração.
Cada nota era o verso de uma prece. Ela abandonava todas as religiões e sonhos para se tornar um trecho da melodia...
Seu coração de velho não agüentou.
------------------

Quando voltou pra casa, insistiu em reunir filhos e netos para um último abraço. Algo lhe diziam que não seria capaz de resistir a cirurgia. Há quinze anos sua esposa deixara este mundo em seus braços, na cama que dividiram por quatro décadas. Seu último esforço foi para abraça-lo, beijar-lhe a fronte e dizer que não poderia imaginar uma vida mais feliz do que a que teve ao lado dele.
Dormiram abraçados e ela nunca mais acordou...
Agora estava sentado aos pés dessa mesma cama. A caixa do violino posta ao seu lado. Havia pedido aos filhos que aquele fosse um último jantar iluminado por velas, como sua companheira tanto amava.
Quando foram buscá-lo, saiu sem dizer uma palavra. Levava consigo a pequena maleta e o instrumento que, a custa da saúde do pai em uma mina, recebera em seu primeiro dia no conservatório. Caminhava confiante e lentamente entre três gerações de olhos inseguros e curiosos.
Escolheu um canto mais escuro da sala, retirou o violino da caixa e começou um lamento triste. Uma música que se perderia logo em seguida e fora arquitetada por seu espírito durante os longos meses em que o corpo permaneceu atado àquela cama de hospital.
Lembrava-se de como o pai tossia em sua primeira apresentação com a orquestra da cidade. Sentiu-se constrangido e implorou aos colegas que lhe perdoassem. Depois fez o pai prometer que não iria mais às estréias e sempre se sentaria na última fileira.
Cerrou os olhos para se livrar das lágrimas. Naquela época, sentira-se um filho justo, pois não negara ao pai o direito de vê-lo tocar. 60 anos depois, se escondera nas sombras para sussurrar um pedido de perdão que a vergonha não deixaria ninguém ouvir.
Sentia os ossos rangendo. Cada decida do arco era um estalo doloroso. Mas decidira não parar. Não tocava para nenhum dos filhos. Não tocava para nenhum dos netos. Não tocava para o pai. Tocava por aqueles 15 anos sozinho naquela casa. Tocava para mostrar que também fora feliz ao lado dela. Tocava para que quando parasse, estivessem juntos novamente.
Seu vulto mal se destacava nas sombras enquanto a melodia corria.
O som parou.
-------------------
Ficou com o violino do avô. Os pais acharam um absurdo quando ela disse que levaria para o apartamento que dividia com as amigas de faculdade. Um instrumento valioso como aquele, Stradivarius genuíno, não podia ficar largado em qualquer canto! Aquilo estava na família há 4 gerações! Ela não deveria tratá-lo de forma tão irresponsável!
Nem pai, nem mãe sabiam sequer assoviar. Pediam que abaixasse o som, estivesse tocando Mozart ou Metálica. Não entenderiam se ela argumentasse que um violino guardado é só uma coisa. Era preciso torná-lo real. Ele só existia durante a música.
Ela só estava viva durante a música.
Era a pressão dos dedos nas cordas que bombeava seu sangue. O coração só servia para marcar o compasso. Não conheceu tabus.
Exceto o silêncio.
----------------------
Acordou tarde na casa de um rapaz que sempre estava por perto quando precisava de companhia. Viu a maleta vazia. O rapaz, num banquinho do lado da cama, admirava o instrumento como se fosse peça de decoração.
De pé na cama, pediu o violino e ensaiou algumas notas antes de começar. A pele branca, os cabelo escuros, o rosto sereno, leves movimentos que seguiam as notas pra mostrar que era o corpo quem soava.
Ela queria que ele percebesse o quanto aquilo tinha significado. Talvez fosse a primeira vez que tocava com tanta paixão desde aquela apresentação. Talvez aquele rapaz, aos poucos, tivesse conseguido chegar até onde a música invadia sua alma. Talvez ele entendesse...
Ele interrompeu.
Estava cego. O mundo girava em torno dela e tudo que queria era tocar aqueles lábios tristes.
Ele interrompeu.
Ela saiu pela porta, colocou o vestido corredor afora, foi pra rua, correu descalça até uma praça quase deserta. Só viu que ainda carregava o violino quando sentou em um banquinho. Na sua cabeça, era interrompida pelo grito da mãe em sua primeira apresentação e pelo beijo daquele rapaz a poucos instantes. Sua vida se quebrava quando a paixão arranhava sua realidade.
O avô morrera com aquele instrumento.
Ela só vivia enquanto as cordas vibravam.
Precisava saber...
Começou a tocar.